Perturbação Bipolar

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A Perturbação Bipolar Pediátrica (PBP) é uma condição marcadamente disruptiva não só na vida da criança e do jovem, mas, constitui também um enorme um desafio para todos os técnicos envolvidos. A PBP caracteriza-se por uma acentuada instabilidade emocional, com oscilações de humor, energia e comportamento. Assim, são frequentes as oscilações entre momentos em que está otimista, enérgico, entusiasmado – estado de mania e, os momentos em que está triste, apático, pessimista- estado depressivo. Na criança, as oscilações de humor são rápidas ou ultrarrápidas, podendo mesmo observar-se uma alternância entre estados depressivos e de mania ou hipomania várias vezes no mesmo dia.

 A controvérsia e o ceticismo relativos ao diagnóstico da PBP têm vindo, contudo, a persistir principalmente no que respeita a apresentação sintomática da mania na primeira infância e a sua prevalência, com estudos a reforçar uma maior relevância e início mais precoce e atípico, do observado na idade adulta. Apesar desta controvérsia, os avanços conceptuais permitem-nos já assumir que a mania nas crianças tende a apresentar um curso crónico e contínuo, em oposição ao curso descontínuo e episódico, observado na idade adulta.

Neste sentido, é também relevante percebermos que não há uma apresentação de sintomatologia igual a todas as crianças/jovens e a todos os contextos. Há sim uma apresentação variável, em que os sintomas podem surgir em casa, mas não na escola, ou agravarem em determinados contextos, sendo a tónica da imprevisibilidade o aspeto a considerar. É justamente a variabilidade de sintomas que leva os autores a falar de um espectro de humor.

É assim compreensível toda a problemática implícita ao diagnóstico da PBP e os imensos desafios que coloca aos técnicos, sendo cada vez mais determinante a necessidade de perceber a forma como a mania se pode manifestar na infância. A PBP pode metaforicamente ser associada e descrita como uma estrela que “anda à volta”. Cada ponto da estrela corresponderia nesta ótica a um diferente estado de humor variável entre a raiva expressiva, a irritabilidade extrema, e o humor normal. É de fato, esta imprevisibilidade, descontextualização e severidade dos comportamentos descritos que devem ser tidos em consideração quando estamos perante uma criança cujas queixas se enquadram em queixas de humor. Para considerarmos uma PBP, obviamente que não podemos negligenciar que a apresentação destas alterações de humor, têm de ser severas e frequentes, ciclos rápidos e curso crónico e contínuo, existindo persistência total dos sintomas. Mais especificamente falando, de entre todos os desafios que este diagnóstico apresenta, assumem preponderância o discurso apressado/acelerado (alterações no discurso com períodos em que falam muito rápido, muito alto, intrusivos e difíceis de interromper como que ignorando o outro; aqui é relevante salientar que este discurso intrusivo não está relacionado com o receio desse esquecer algo, com é frequente na PHDA); decréscimo da necessidade de dormir (muita energia na hora de deitar, tendo 2/3horas de sono por noite, sem fadiga evidente no dia seguinte); hiperatividade (variação na agitação com aumento de atividade sem razão), distratibilidade (variação e em paralelo com mudança de humor, sendo diferente do que acontece com a PHDA i.e., dificuldades em  manter o foco sincrónicas com as oscilações de humor; na PHDA a dificuldade em manter o foco é constante), envolvimento em atividades de risco ou de prazer (hipersexualidade- interesse ou curiosidade desadequado para a sua idade, fugas de casa, compras, roubos); alucinações auditivas (congruentes com o humor).

Outra questão de extrema relevância na PBP é a fase do desenvolvimento em que a sintomatologia surge, dado que, dependendo da altura do desenvolvimento em que a sintomatologia surge, temos expressões muito diferentes. Assim, destacamos: Início de sintomas precoce: é provável termos uma criança com diagnóstico de PB sem outra especificação, em que a labilidade emocional e a irritabilidade serão a marca, com tendência a um pior funcionamento, dado que quanto mais cedo a sintomatologia se expressa, maior o invés no desenvolvimento normativo a longo prazo. Tende a expressões de irritabilidade e labilidade emocional, episódios mistos, mais ou menos longos, sem remissões ou com remissões de curta duração, podendo existir comorbilidade com perturbação de hiperatividade com défice de atenção, perturbação disruptiva de humor ou perturbação de oposição; Início da sintomatologia em idades mais tardias, normalmente na adolescência, o quadro apresenta-se muito semelhante ao encontrado na idade adulta, com uma expressão inicial de sintomatologia depressiva severa e mais longa e, a fase maníaca, mais típica e grave; Início intermédio, será um quadro misto entre os 2 polos anteriormente referidos.   

A intervenção neste contexto assenta numa base multimodal, ao nível sintomático (características, terapêutica farmacológica) e uma abordagem funcional (baseada nas áreas de desadaptação, contextos e relações, percurso pessoal e , intervenção cognitivo comportamental). Neste sentido, não basta a identificação da criança e a relação com a intervenção multimodal, é necessária a atuação na família e nos múltiplos sistemas em que está integrada (criança, pais/família, escola). A literatura já contempla vários modelos de intervenção psicossociais, estruturados para este quadro diagnóstico, tanto em crianças como em adolescentes. Salienta-se o Raibow Therapy, um programa para a Perturbação Bipolar, baseada na Terapia Cognitivo-Comportamental e direcionada para a criança e família. Resumidamente contempla 3 fases num total de 16 sessões, com sessões de follow-up adicionais e, sessões de grupo aberto em regime de auto-ajuda.

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